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Mensagens

Minha Celephaïs

Vi nos tons pastel frios do amanhecer, entre nuvens brancas que se confundiam com alvorado ciano, o minguante cândido espreitando tímido. De repente, era uma vela enfonada bailando sobre espuma celeste num mar cinzento, partindo de novo após a devolução das almas sonhadoras aos inanimados corpos que, durante as horas sombrias e plenas de terrores indizíveis, os abandonaram como luvas vãs, vazias da matéria essencial que lhes dá o significado do ser. A escuma erguia-se e apartava-se sob quilha forte e tenaz, num mar revolto mas imaterial e quis a ilusão ou o quebranto da noite ainda imposto sobre a minha visão, que da vela-lua que agora partia, uma tênue linha de memória se formasse e estendesse gentilmente ao meu sentido. Fita rebelde de alvor e luz, como chave em ferrolho único destrancou nos recônditos da minha alma o que Morfeu despótico decretou olvido fazendo de mim ladrão vencedor do erário dos Oneiros. Em meus lábios, a prata fez-se palavra e tiniu gentil mas sonora no ar frio d...
  Houve ali um momento, no ponto angular daquela pedra, em que dispus novamente ao vento e à sua misericórdia... "Zéfiro, Senhor," orei para comigo, "toma-me novamente como quando era pequeno e com a mesma facilidade ampara-me no ar impedindo-me a queda... Perdoa-me as costas que te dei ao longo dos anos por ser insensato contar contigo. Toma-me de peito aberto e se acaso não tiveres em ti piedade com que me agraciar, solta-me lentamente para que te guarde apenas como lembrança ou fantasia da infância.". E o vento teve-me, susteve-me e conteve-me, como um velho amigo, como um irmão mais velho que embala desajeitado mas com carinho o mais novo... E de novo as vozes do mundo me alertaram para a insensatez de confiar no vento, de novo me pediram que abandonasse a iminência do abismo, de novo se levantaram em preocupação ante um previsível e evitável destino... E eu... Eu sorri ao vento que atiça o fogo na minha alma, abracei-o mais um momento e despedi-me com mais um ...
  Estamos numa floresta algures no norte do Vietname, algures perto da fronteira com a China, com vegetação densa que mal permite que os raios de sol cheguem ao chão. Uma aberração, um ser vagamente descrito como uma cobra mas com patas, com o comprimento de quatro homens adultos e formações ósseas tão finas ao longo do corpo e cabeça que quase parecem pelos. Acaba de rasgar o pescoço a um pequeno javali, mas espera caça maior... Imita os sons abafados da sua presa enquanto mescla o seu ondulante corpo com as linhas da floresta... É praticamente invisível por vontade própria, o senhor da camuflagem. O alegado rei da floresta, o felino de corpo laranja rasgado de traços negros aproxima-se, cauteloso. O seu território alarga-se desde o Punjabi até à China. É um portento de força e magestade, temido por muitos e contestado por poucos... Mesmo o Homem sabe que deve deixar as suas cabanas longe dos seus terrenos de caça. Cheirou há algum tempo o sangue do suíno, vem seguindo os berros a...

Una mattina

     O Sol ainda não nasceu... No ar, a chuva da noite ainda se julga dona e senhora de tudo aquilo que tocou sem se aperceber da ameaça que a luz traz... a luz... a fraca e fugidia luz fria da alvorada. No quarto, quente do sono, ele levanta-se como que de um pesadelo consciente... Vocês sabem... quando a meio do sonho que começa a ser desagradável se consegue travar Morpheu a meio da pintura e se diz "não não não, senhor, isto está tudo mal, isto não poderia jamais acontecer! tire daí o sentido que isso não convence ninguém!" e simplesmente saímos da sala completamente decepcionados com o falhanço do Deus... Abre os olhos, faz o inventário das funções vitais:  - respirar, check (bolas!);  - urina,ena, no vermelho, vou ter mesmo de me levantar já... check;  - fome, ainda há résteas daquele peso no estômago da quantidade de pizza que comi ontem e.... ah! daí o medíocre pesadelo... pffff... check;  - sede, claro que sede, não tenho água organismo para c...

No fundo da algibeira

Por umas horas tive vinte, não vinte e quinze... Por umas horas, era eu, o âmbar escorregadio, caras conhecidas de silêncios que se entendem, as cordas a vibrar e nada... Mais nada do que trouxe as linhas que trago marcadas fundas na alma e no rosto. Tudo simplificado como quando era simples. Por momentos.... "Tu não envelheces?!", dardejam-me... Na alma, aqui, não. Para quê? Quando era da idade que pus perguntavam-me se não iria crescer um dia e chamavam-me tolo. Fui tolo e cresci, mas não tão tolo que não trouxesse um pouco do passado escondido no fundo da algibeira.
Escuridão à minha volta, um foco de luz incide apenas sobre mim. Não pretende chamar a atenção sobre mim pois não há mais nada fora da luz que me encandeia. Já cá estive, como estou. Nú. Não há com quem justificar vergonhas. Olho em volta procurando quem sei não estar. Alguém. Nada. Joelho no chão, mão no chão, olhar no chão. Branco, frio, pedra, tão vazio quanto a escuridão que me cerca. Sei o que se segue. A voz dela. "O que pensas que estás a fazer?". Permaneço em silêncio, qualquer resposta é dolorosa porque em boa verdade toda a resposta seria mentira exceto "não sei" e essa doeria ainda mais. Não preciso de articular palavra, estou nú. "Ou não pensas, ou não estás a fazer. Tu nunca estás quieto, bicho desassossegado... Assim, porque não pensas?" "Pensar para quê? Planos para quê? Se..." A minha voz é-me r...
"Eu não quero..." Como se a vontade me desarmasse... Olhos já rasos de lágrimas porque sabe que é escusado e que sem levantar a voz não vai ser feita a vontade mas o dever. - Pequenino... Meu amor... Deixa-te estar ao meu colo.... Um chi? Um chi bom e apertado. - Mas eu não quero! - Eu já percebi... E percebi que não percebes porque tem de ser assim e desculpa, mas também não sou capaz de te explicar melhor e vais ter de confiar em mim... Olhos a desviar-se... Não é birra... É apenas mais agradável a alternativa e ele prefere-a... Como o compreendo. - Escuta, vamos experimentar devagarinho... Um primeiro esforço só, vá... Se não conseguires, tudo bem. - Não... - um ensaio de esperneio para fugir. - Queres a recompensa? Olha ali... Queres aquilo? - ele cede um pouco - não nos te estou a pedir tudo... Vá, vamos aos poucos? Ele cede. E em menos de nada tem o lanço para acab...