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Mensagens

Eu levo a bordoada. Calo.  Se consigo digerir, se a bordoada é pequena, sacudo o pó e sigo. Se não consigo, disfarço a dor.  Escondo-a no meu cérebro atrás de outros químicos, Dou covardemente tempo à minha mente tempo para não reagir, Oculto a reação em algo, seja o que for, desde que me ocupe a química que faz os pensamentos.... Porque a biologia sabe que a argamassa que me compõe tem limites, A dor, se colocada em espera por outras questões mais urgentes, perde intensidade. Então faço algo. Exijo ao cérebro atenção para outra coisa. Não importa o quê ou quão ridículo. Mais tarde, provavelmente vem a quebra, O meltdown, o afogamento... Desisto e sinto a dor. Agarro-a.  Ainda estou vivo. Ainda sinto. Mesmo que dor, ainda sinto... A dor prova-me que ainda sou humano e que ainda vivo. Agarro-me a ela. E depois vem o cansaço. A dor sente-se presa e afasta-se e fica o mais grave cansaço. E eu suporto o cansaço porque não há mais que fazer ao cansaço além de o deixar estar co...
 Eu fui um monstro em forma de gente. Eu fui um traidor  Eu fui um mentiroso. Usei pessoas como objectos. Precisei disso para me sentir bem com a minha própria auto-estima de merda e só a piorei. Nada do que a vida me possa ter atirado para cima pode justificar o porquê de eu ter (mesmo inconscientemente) ESCOLHIDO o caminho mais fácil a curto prazo apenas para sofrer aos poucos até o maior sofrimento se tornar inevitável. Não importaram palavras de carinho e de apoiode amigos e familiares. Não importaram reprimendas ou castigos.  Não importou o que perdi. Não importou o quanto sofri pelas minhas decisões nem o quanto fiz sofrer com as minhas atitudes e atos.  Não importaram orações, maldições, não importaram insultos nem louvores.  Nada importou para me mudar.  Responsabilidade e ownership. Eu assumo responsabilidade por todo o sofrimento que causei.  Eu admito as minhas falhas e defeitos.  Não foram drogas, não foram vícios, não foi falta de fé ...

Minha Celephaïs

Vi nos tons pastel frios do amanhecer, entre nuvens brancas que se confundiam com alvorado ciano, o minguante cândido espreitando tímido. De repente, era uma vela enfonada bailando sobre espuma celeste num mar cinzento, partindo de novo após a devolução das almas sonhadoras aos inanimados corpos que, durante as horas sombrias e plenas de terrores indizíveis, os abandonaram como luvas vãs, vazias da matéria essencial que lhes dá o significado do ser. A escuma erguia-se e apartava-se sob quilha forte e tenaz, num mar revolto mas imaterial e quis a ilusão ou o quebranto da noite ainda imposto sobre a minha visão, que da vela-lua que agora partia, uma tênue linha de memória se formasse e estendesse gentilmente ao meu sentido. Fita rebelde de alvor e luz, como chave em ferrolho único destrancou nos recônditos da minha alma o que Morfeu despótico decretou olvido fazendo de mim ladrão vencedor do erário dos Oneiros. Em meus lábios, a prata fez-se palavra e tiniu gentil mas sonora no ar frio d...
  Houve ali um momento, no ponto angular daquela pedra, em que dispus novamente ao vento e à sua misericórdia... "Zéfiro, Senhor," orei para comigo, "toma-me novamente como quando era pequeno e com a mesma facilidade ampara-me no ar impedindo-me a queda... Perdoa-me as costas que te dei ao longo dos anos por ser insensato contar contigo. Toma-me de peito aberto e se acaso não tiveres em ti piedade com que me agraciar, solta-me lentamente para que te guarde apenas como lembrança ou fantasia da infância.". E o vento teve-me, susteve-me e conteve-me, como um velho amigo, como um irmão mais velho que embala desajeitado mas com carinho o mais novo... E de novo as vozes do mundo me alertaram para a insensatez de confiar no vento, de novo me pediram que abandonasse a iminência do abismo, de novo se levantaram em preocupação ante um previsível e evitável destino... E eu... Eu sorri ao vento que atiça o fogo na minha alma, abracei-o mais um momento e despedi-me com mais um ...
  Estamos numa floresta algures no norte do Vietname, algures perto da fronteira com a China, com vegetação densa que mal permite que os raios de sol cheguem ao chão. Uma aberração, um ser vagamente descrito como uma cobra mas com patas, com o comprimento de quatro homens adultos e formações ósseas tão finas ao longo do corpo e cabeça que quase parecem pelos. Acaba de rasgar o pescoço a um pequeno javali, mas espera caça maior... Imita os sons abafados da sua presa enquanto mescla o seu ondulante corpo com as linhas da floresta... É praticamente invisível por vontade própria, o senhor da camuflagem. O alegado rei da floresta, o felino de corpo laranja rasgado de traços negros aproxima-se, cauteloso. O seu território alarga-se desde o Punjabi até à China. É um portento de força e magestade, temido por muitos e contestado por poucos... Mesmo o Homem sabe que deve deixar as suas cabanas longe dos seus terrenos de caça. Cheirou há algum tempo o sangue do suíno, vem seguindo os berros a...

Una mattina

     O Sol ainda não nasceu... No ar, a chuva da noite ainda se julga dona e senhora de tudo aquilo que tocou sem se aperceber da ameaça que a luz traz... a luz... a fraca e fugidia luz fria da alvorada. No quarto, quente do sono, ele levanta-se como que de um pesadelo consciente... Vocês sabem... quando a meio do sonho que começa a ser desagradável se consegue travar Morpheu a meio da pintura e se diz "não não não, senhor, isto está tudo mal, isto não poderia jamais acontecer! tire daí o sentido que isso não convence ninguém!" e simplesmente saímos da sala completamente decepcionados com o falhanço do Deus... Abre os olhos, faz o inventário das funções vitais:  - respirar, check (bolas!);  - urina,ena, no vermelho, vou ter mesmo de me levantar já... check;  - fome, ainda há résteas daquele peso no estômago da quantidade de pizza que comi ontem e.... ah! daí o medíocre pesadelo... pffff... check;  - sede, claro que sede, não tenho água organismo para c...

No fundo da algibeira

Por umas horas tive vinte, não vinte e quinze... Por umas horas, era eu, o âmbar escorregadio, caras conhecidas de silêncios que se entendem, as cordas a vibrar e nada... Mais nada do que trouxe as linhas que trago marcadas fundas na alma e no rosto. Tudo simplificado como quando era simples. Por momentos.... "Tu não envelheces?!", dardejam-me... Na alma, aqui, não. Para quê? Quando era da idade que pus perguntavam-me se não iria crescer um dia e chamavam-me tolo. Fui tolo e cresci, mas não tão tolo que não trouxesse um pouco do passado escondido no fundo da algibeira.