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Mensagens

Escuridão à minha volta, um foco de luz incide apenas sobre mim. Não pretende chamar a atenção sobre mim pois não há mais nada fora da luz que me encandeia. Já cá estive, como estou. Nú. Não há com quem justificar vergonhas. Olho em volta procurando quem sei não estar. Alguém. Nada. Joelho no chão, mão no chão, olhar no chão. Branco, frio, pedra, tão vazio quanto a escuridão que me cerca. Sei o que se segue. A voz dela. "O que pensas que estás a fazer?". Permaneço em silêncio, qualquer resposta é dolorosa porque em boa verdade toda a resposta seria mentira exceto "não sei" e essa doeria ainda mais. Não preciso de articular palavra, estou nú. "Ou não pensas, ou não estás a fazer. Tu nunca estás quieto, bicho desassossegado... Assim, porque não pensas?" "Pensar para quê? Planos para quê? Se..." A minha voz é-me r...
"Eu não quero..." Como se a vontade me desarmasse... Olhos já rasos de lágrimas porque sabe que é escusado e que sem levantar a voz não vai ser feita a vontade mas o dever. - Pequenino... Meu amor... Deixa-te estar ao meu colo.... Um chi? Um chi bom e apertado. - Mas eu não quero! - Eu já percebi... E percebi que não percebes porque tem de ser assim e desculpa, mas também não sou capaz de te explicar melhor e vais ter de confiar em mim... Olhos a desviar-se... Não é birra... É apenas mais agradável a alternativa e ele prefere-a... Como o compreendo. - Escuta, vamos experimentar devagarinho... Um primeiro esforço só, vá... Se não conseguires, tudo bem. - Não... - um ensaio de esperneio para fugir. - Queres a recompensa? Olha ali... Queres aquilo? - ele cede um pouco - não nos te estou a pedir tudo... Vá, vamos aos poucos? Ele cede. E em menos de nada tem o lanço para acab...
Caminhava pelo mercado numa tarde fria, vendo os vendilhões vendendo as suas mercadorias nas bancas cobertas por linhos de muitas cores e completamente fascinado pelo odor das frutas, pelo murmúrio indefinível resultante dos pregões e das disputas de negócio... Via as pessoas a irem umas contra as outras, empurrando-se mais por negligência do que por intenção, cada um no seu caminho pessoal. Nessa tarde reparei num homem. Comprava fruta a peso como as restantes pessoas. Mexia e remexia em tecidos que tencionava comprar... Olhava as pessoas como eu e escondia-se como eu, mas eu escondo-me por causa do meu aspecto e tenho mais sucesso que ele porque, apesar de se esconder, não se ocultava tanto quanto desejaria permitindo que qualquer pessoa lhe visse a cara. Isto fez-me pensar que o que ele ocultava não seria tanto o seu aspecto, mas algo de interior. Depois de o ver a pagar uma pulseira de um azul majestoso e afastar-se cauteloso da respectiva banca, aproximei-me com a minha cautela...

Oath / Voto

The thing is... I'm no longer in it for the "lulz", I'm not in it for the righteousness, I'm not in it for my soul, I'm not in it for glory, for recognition, fame... I'm in it despite all that. There's no hope, no fear, no joy, no regret. Only life. And on the lack of a better role model I will be it. I will do what I must. I will bring this dark cruel wicked world to its knees one desperate soul at a time, one inner demon at a time... Until my own time is done. A questão é que... Já não estou nessa pela piada, não estou nessa pela rectidão, não estou nessa pela minha alma, não estou nessa pela glória, reconhecimento, fama... Estou nessa apesar disso tudo. Não há esperança, nem medo, nem alegria, nem arrependimento. Apenas a vida. E na ausência de melhor exemplo, cumprirei eu esse papel. Farei eu o que tenho de fazer. Farei com que este mundo frio, cruel e traiçoeiro se ajoelhe, uma alma desesperada de cada vez, um demónio interior de...

De dignitate

Os helénicos, aprendi eu numa qualquer aula de latim ou de cultura clássica, achavam aberrante a noção de submissão a fosse o que fosse. Se algo, Deus ou humano, te pedisse ou ordenasse uma posição de submissão e de voluntária fragilidade, não seria, pela lógica, tão poderoso quanto o que se suporia (um Senhor que precise que um servo se jogue por terra para mais comodamente o pisar, não terá tanto poder que não o consiga fazer com o servo de pé). Quando Xerxes e outros invadiram as penínsulas e arquipélagos da Magna Grécia, os primeiros mensageiros levavam instruções de sugestões de submissão e rendição antes da guerra; isso era aberrante para o grego comum que estaria até disposto a negociar uma rendição mas nunca a submeter-se incondicionalmente. Aos próprios Deuses locais, ao próprio Zeus, eram dirigidas preces, orações, sacrifícios e holocaustos de pé, cabeças erguidas; no alto da dignidade humana reconheciam-se os Deuses como superiores. Aos Deuses do Olimpo dirigiam-s...

Pathos

A culpa foi mi n ha... Foi clarame nte mi nha... Quem me ma ndou  na arrogâ ncia dos verdes a nos ter eu, mortal fraco e ridículo, afro ntar todos os ambula ntes  negros? Como se  nada jamais mudasse  numa vida. Eu sabia. A mi nha hybris desvela-se  neste pathos. Desde cedo te nho co nhecime nto das três magias: a bra nca da bo ndade e da misericórdia, da tempera nça e do amor; a  negra do egoísmo, da vi nga nça, da agressão, do oportu nismo; e a mais perigosa e i nso ndável das três, a ci nze nta, através da qual quase tudo se dá e todos os so nhos quase se realizam para serem roubados ao faltar um mover de mão para a co ncretização....  Fui cruel e desapaixo nadame nte alvo da terceira, estou em crer.
Não me venham falar de amor... Já não... Não mais. Não me falem de paixões e de dores, de medos e pavores de não ser desejado ou traído. Amor não permite traições... Existem dores e medos de perda mas a única perda possível é a do roubo da morte... Não se ama alguém em pleno até se ser uno com essa pessoa de forma irremediável. Até que um terceiro elemento prove que um mais um não são apenas dois....