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Mensagens

Afirmação

A afirmação pessoal é um jogo muito perigoso. O Homem é um bicho social e eu sou um homem... Seguir o silogismo lógico é desnecessário. Na adolescência, na fase de definição da identidade, é normal ser-se extravagante, cometer erros, revoltarmo-nos contra o mundo e a sociedade e as injustiças e o sentimento de que nada nem ninguém nos pode aceitar ou compreender. A acomodação seguinte é considerada a vida adulta. Admitimos que não podemos mudar o mundo e, como o mundo não nos aceita, temos de mudar e conformarmo-nos... Viver a restante vida à espera e a lutar por aguentar a pressão... Há caos no Mundo. Nada é como queremos nem nunca será, sejamos nós como formos, queiramos nós o que quisermos. A frustração acumula no quotidiano e transforma empregos de sonho na modorra monocórdica da rotina... E não há nada que ninguém possa fazer contra isso, contra a inexorável passagem do tempo... É um demónio que não devora mas corrói a alma de cada um, que nos faz procurar a felicidade em coisa...

Piedade

"Sabes o que é fome? Tu não sabes o que é fome a sério!" - diz ela. Eu sorrio e em meu sorriso contenho a chama sádica que tenho, por ser piedoso, de conter. Espero dois segundos para não lhe enfiar a mão entre os dentes e partir um ou outro no processo, eu sou bonzinho. Nesses dois segundos respondo-lhe com sanguinolência nos olhos; respondo-lhe, àquela criatura que não duvido já tenha sido humana; respondo-lhe com menos carinho do que me merecem as pedras da sua sobre as quais ela dorme; respondo-lhe. Digo-lhe que a única fome que eu conheço é a de ter uma refeição por dia, um pedaço de pão borrado, não barrado, do resto da manteiga que ficou do mês enquanto trabalhava oito horas por dia para que não me faltasse pão até ao fim-do-mês seguinte. Digo-lhe, e acompanho minhas palavras de cortes com um alicate de podar rombo nos dedos, que já fui assaltado por criaturas que, de semelhantes a ela, me amordaçaram e empurraram, me enxovalharam depois de me terem levado os bens que...

Da estupidez

Disse Einstein, salvo erro,"Há duas coisas infinitas, o Universo e a estupidez humana e tenho as minhas dúvidas acerca da primeira". Estamos a falar de um homem que por suas próprias palavras não se dizia muito inteligente, mas cuja curiosidade o levou a reformular todas as bases científicas para o conhecimento do cosmos e das forças que o regem. Quando um homem assim afirma que a Estupidez humana poderá ser maior do que o Universo, vemos o quão pequenos são os que, em se encontrando fora da Estupidez, a observam e se intimidam por ela. No meu ponto de vista, nos panteões mundiais que conheço encontram-se ausentes dois deuses, duas divindades, que rejam dois factores de condicionamento humano; faltam o Deus do Medo e o Deus da Estupidez. Concedo que numa ou noutra religião surjam deuses da guerra, da morte e do vinho, que vão fazendo as vezes de regedores daquelas duas particularidades em específico à vez, mas acredito que semelhantes tutelas mereciam uns responsáveis efetivo...

Não és tu, sou eu...

  Acho fantástica a perceção de certas almas mais simples de que "tu magoaste-me muito" ou "estás a magoar-me". Isto no que concerne à dor que nos é imposta, regra geral por pessoas próximas ou importantes para nós, a nível sentimental ou emocional. A deceção é entendida como algo como nos fazem e  aceite como uma facada. Aliás, a expressão cumular no que ao português concerne para designar a traição, a epítome da deceção, é a bem conhecida "facada nas costas". Idem, aqui há uns anos não havia casos extraconjugais! Pelos Deuses, que expressão tão pouco carinhosa, tão rude, tão fria!... Não, havia a doce e eufemística expressão "facadinha" no matrimónio. Tem tudo para ser melhor aceite, desde a imagética associada a uma traição - a facada - ao diminutivo essencial para a captatio benevolentia.  O ponto central do meu argumento, ao qual regresso, é a responsabilidade da dor. A isenção covarde da qual a maior parte das almas novas padece, atribuind...

Coming back

Estava eu sossegadito deitado no sofá a olhar para anteontem e lembrei-me que tinha um sacana de um blog.... Um desgraçadito de um blog no qual já não escrevo desde que relutantemente me converti à rede social do F branco sob fundo azul. Sendo que eu sou como toda a gente e não faço nada que toda a gente faça a não ser aquilo que toda a gente faz negando fazer, a modos que vou deixar-me de escárnio mordaz no face, passando apenas a refletir  nesta minha torre toda a amplitude da minha parvalheira, toda a profundidade da minha pseudo-filosofia de chavões e frases feitas e toda a abrangência metafísica albergada no... coiso. Como já devem ter reparado (sim, vocês os dois que estão a ler acidentalmente estas linhas e que possam por ventura partilhar a infelicidade de me conhecer pessoalmente), não só não envelheci, como me deixei das chonices emo-gótico-cenas que não tinha quando era mais novo. Em boa verdade, rejuvenesci uns bons 8 anos e pico no último mês. Assim sendo, alguém se ...

Pedradas

Às vezes parece que não faço outra coisa além de me sentar aqui vendo o incessante vai e vem das ondas. Observando a eterna mutabilidade e imutabilidade daquele mar, a forma como as marés sobem e descem, as ondas avançam e recuam, como os barcos rasgam os horizontes e os deixam imaculados... Sentar-me aqui, junto a este mar faz-me perceber que devo ser como o mar, a minha vida deve imolar o mar em todos os aspectos. Intempestivo e calmo, brilhante e sombrio, claro e encoberto... Devo ser, sim, como o mar e não como a areia que piso pois se olhar para trás na praia vejo as minhas pegadas e as pegadas que me antecederam e que ainda não tiveram oportunidade de desaparecer .  Uma pedrada no mar... Sabe quem já alguma vez atirou uma pedra ao mar que ele não riposta. Agita-se naquele local, solta um berro, maior ou menor mediante o tamanho da respectiva pedra, mas não tarda a voltar ao mesmo como que nunca tivesse havido uma pedra lançada, como se nunca tivesse havido lançamento da pedra...
Da natureza do Mal, do Supremo-Mal ou do sumo representante de tudo o que está mal neste mundo, já muito foi dito. Já desde a Grécia antiga que os grandes pensadores, fundadores da grande maioria da cultura ocidental, consideraram que havia algo que podia ser representado, um paradigma Universal para o Todo, e o anti-representação, o Nada absoluto. A um chamaram symbolón (símbolo) e a outro, diabolón (anti-símbolo). Paradigmas se seguiram, consequentes, concorrentes, adjuvantes, e o Symbolón tornou-se toda a Ordem e a Racionalidade do Universo, toda a Paz, toda a Estabilidade, todo o Equilíbrio; Por sua vez, o Diabolón contrapôs-se tornando-se o indiscritível, o Caos, a Irracionalidade, a Cacofonia, a Mutabilidade, a Desordem. Quando os primeiros cristãos chegaram ao arquipélago helénico, e como a Razão ultrapassa toda a fronteira linguística, cultural e religiosa, ouviram falar no Diabolón. Na tentativa de melhor o compreenderem fizeram algo comum numa cultura infantil e personificar...